quinta-feira, 17 de abril de 2014

Capitães da areia- Jorge Amado

 "Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe. Um dia brigaram. A desgraça de Raimundo foi puxar uma navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e ficaram esperando a revanche, que não tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar Brandão Pedro tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional a que as areias do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porém Pedro Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto,era de uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou não só a chefia dos Capitães de Areia, como o próprio areal. Engajou tempos depois num navio."
 Capitães de Areia é talvez o romance mais influente do Jorge Amado. Clássico absoluto dos livros sobre a infância abandonada, assombrou e encantou várias gerações de leitores e permanece até hoje tão atual quando na época em que foi escrito.
 A história crua, comovente, dos meninos pobre que moram num trapiche abandonado e vivem de pequenos furtos e golpes, aterrorizando a cidade de Salvador, causou impacto desde o lançamento, em 1937, quando a polícia do Estado Novo apreendeu e queimou em praça pública inúmeros exemplares do livro, entre outras obras do autor.
 longe de manifestar piedade ou condescendência por suas pequenas criaturas, jorge Amado as retrata como seres dotados de energia, inteligência e vontade, ainda que cerceados pelas condições sociais hostis em que estão inseridos.
 Do valente líder Pedro Bala, com o rosto atravessado por uma cicatriz de navalha, ao carola Pirulito, que reza todas as noites para purgar seus pecados; do sensato Professor, o único inteiramente letrado do grupo, ao sedutor Gato, aprendiz de cafetão, cada um desses meninos tem sua personalidade, sua concepção de um mundo, seus sonhos modestos.
 Entre o mar e a cidade, batendo carteiras, praticando golpes engenhosos, realizando pequenos furtos, descobrindo o amor das mulheres (e de outros homens), os Capitães da Areia crescem e se tornam homens ao longo deste autêntico romance de formação.
 Os destinos de Capitães de Areia também serão variados, uns morrem de doença ou de tiro, um vira artista, outro revolucionário, a maioria insiste na via do crime. Com sua prosa repleta de verve e humor, Jorge Amado nos torna íntimos  de cada um desses personagens singulares e nos contagia com sua obstinada gana de viver.

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